Um mestre nunca vai embora por completo
- Welton Nadai

- 25 de jul.
- 3 min de leitura
Discurso na missa de sétimo dia de Pedro Cameron

Boa noite a todos.
Depois que Pedro faleceu, eu passei alguns dias sem tocar violão.
Foi uma sensação estranha. Pela primeira vez em muitos anos, eu olhava para o instrumento e me perguntava se fazia sentido tanta dedicação a uma profissão tão difícil. Uma profissão que exige tanto de nós e que, muitas vezes, oferece muito menos reconhecimento do que as pessoas imaginam.
Pedro foi reconhecido por muita gente. Formou gerações de músicos, deixou sua marca em inúmeros alunos e projetos. Mas, sinceramente, eu sempre achei que ele merecia muito mais reconhecimento do que recebeu.
E, naquele momento, uma pergunta ficou na minha cabeça: será que vale a pena?
Com o passar dos dias, comecei a perceber que talvez eu estivesse fazendo a pergunta errada. Talvez o mais importante não seja o lugar a que chegamos, os títulos que conquistamos ou o reconhecimento que recebemos. Talvez o mais importante seja a caminhada, a subida, o caminho que escolhemos percorrer e as pessoas que encontramos ao longo dele.
E quando penso em Pedro, vejo alguém que encontrou sentido exatamente nesse caminho.
Pedro foi uma pessoa que dedicou sua vida aos seus alunos. E isso não é uma figura de linguagem. Ele deu aulas até os seus últimos dias. Mesmo diante das dificuldades, continuou fazendo aquilo que mais amava.
Talvez por isso sua partida seja tão difícil. Porque era muito claro para todos nós que sua grande motivação de vida era ensinar. Dar aulas não era apenas sua profissão. Era sua vocação.
Nos mais de vinte anos em que convivi com ele, uma coisa sempre me chamou a atenção. Pedro pouco viajava, não era alguém que se empolgava com férias ou feriados. O que realmente lhe dava alegria era sua rotina de aulas, os ensaios, os encontros com os alunos, as conversas sobre música e a oportunidade de compartilhar conhecimento.
Foi com Pedro que eu entendi o verdadeiro significado da palavra mestre.
Um professor transmite conhecimento. Um mestre faz isso também, mas vai além. Um mestre inspira, orienta, desafia, acredita em seus alunos e transforma vidas.
Ao longo desses mais de vinte anos, aprendi muito sobre música com ele. Mas talvez os ensinamentos mais importantes não tenham vindo apenas das partituras ou dos arranjos. Vieram do seu exemplo de dedicação, de disciplina, de compromisso e de amor pelo ensino.
Eu sempre soube que Pedro ainda tinha muito a me ensinar. O que eu não sabia era o quanto sentiria sua falta.
Como aluno, a gente acaba acreditando que o mestre estará sempre ali. Que ainda haverá uma próxima conversa, uma próxima aula, um próximo conselho. E só quando essa possibilidade nos é retirada é que percebemos o tamanho do vazio que fica.
Mas, com o tempo, também percebi outra coisa.
Uma parte de Pedro continua aqui.
Está na minha música, em muitas das escolhas que faço, em ideias que carrego comigo e até em formas de pensar que aprendi observando seu exemplo.
Está em palavras que ele corrigiu, em orientações que me deu, em chamadas de atenção que só fui compreender anos depois.
Está também nas lembranças mais simples. Nas conversas antes das aulas, nos cafezinhos compartilhados e até nas piadas que ele gostava de contar.
Talvez seja por isso que um mestre nunca vá embora por completo. Porque aquilo que ele ensina deixa de pertencer apenas a ele e passa a viver em cada um de seus alunos.
Hoje, ao nos despedirmos de Pedro, também prestamos uma homenagem a todos os professores que dedicam suas vidas a ensinar. Pessoas que, muitas vezes, transformam o mundo silenciosamente, uma aula de cada vez, um aluno de cada vez.
A saudade é grande. Mas maior do que a saudade é a gratidão.
Gratidão por tudo o que ele nos ensinou. Gratidão pelo exemplo que deixou. Gratidão pela vida que dedicou à música, ao ensino e às pessoas.
Muito obrigado, mestre Pedro Cameron.
Que possamos honrar seu legado seguindo adiante, carregando conosco aquilo que você plantou em cada um de nós.



Comentários